Aproximei-me da cama, a esmeralda pesando em minha mão como um coração arrancado.
Havia custado uma fortuna obtê-la. Não em ouro, mas em segredos sussurrados a
bruxas antigas, em rituais menores que já haviam manchado minhas mãos de formas
que preferia não lembrar.
— Tricius? — A voz dela era fraca, sonolenta. Os olhos verdes se abriram ligeiramente, turvos pela poção.
— É… é noite ainda?
— Sim, meu amor. — Sentei-me ao lado dela, afastando uma mecha de cabelo de seu rosto. — Volte a dormir.
— Eu me sinto… estranha. — Ela tentou levantar a mão, mas o movimento era lento, pesado. — Meu corpo… não obedece…
— Shh. É normal. Você está cansada, apenas descanse.
— Orion… preciso… alimentá-lo quando acordar…
— Eu cuido dele. Durma um pouco mais.
Mentia. Mentia enquanto colocava a esmeralda sobre seu peito, exatamente onde seu
coração batia devagar, preguiçosamente. A poção havia feito seu trabalho — sua alma estava
presa ao corpo, mas o corpo não mais respondia aos comandos da mente. Ela estava
acordada dentro de uma prisão de carne.
— Tricius… — Havia medo em sua voz agora. — O que… o que você está fazendo?
Retirei a adaga da bainha, a lâmina fria refletindo a luz da lua.
Não era para ela. Nunca seria para ela.
Cortei meus próprios pulsos, primeiro o esquerdo, depois o direito. A dor era distante,
quase irreal comparada à dor que já carregava na alma. Meu sangue pingou sobre a esmeralda,
escuro e denso.
— Tricius! — Ela tentou gritar, mas a voz saiu como um sussurro quebrado. — Por favor… não… Orion… nosso filho…
— É por nosso filho, Rowena. — Comecei o encantamento. As palavras antigas queimando minha garganta. — Para que ele nunca conheça guerra. Para que Micelor seja um santuário. Eterno.
— Ele… ele precisa… de mim…
As lágrimas escorriam pelos cantos de seus olhos, mas o corpo permanecia imóvel.
Aprisionado.
— Você vai vê-lo. — Minha voz rachou.
— Eu imploro… vamos ver… ver nosso filho crescer…
— Estará sempre conosco. Eu prometo.
Kal'vyn esmer'thala, duon'shara eternis…
A esmeralda começou a brilhar. Verde-escuro, depois verde-claro, pulsando no ritmo do
coração dela. Ou era do meu? Não conseguia mais distinguir.
Ainda enquanto me concentrava, ouvi Orion se mexer no berço. Um pequeno som, quase
um suspiro. Ele não chorou. Não acordou. Continuava dormindo, protegido, inocente.
— Eu te amo, Rowena. — Inclinei-me, beijei sua testa gelada. — Você vai entender. Um dia, quando Orion crescer em paz, quando nosso povo não mais enterrar seus filhos em covas rasas…
— Isto nunca… poderia ser amor. Você é só… mais um mons… monstro… — Ela conseguiu sussurrar, os olhos verdes me fuzilando mesmo através das lágrimas. — Você… é um… monstro…
…vyn'kor selum morathis, duon'anima entrel'vyn…
Senti quando minha alma foi arrancada. Foi como ser despedaçado de dentro para fora,
como se cada pedaço de mim fosse puxado através de uma fenda estreita demais. Gritei. Ou
talvez não tenha gritado. Talvez o som tenha morrido em minha garganta junto com tudo que
eu era.
E então senti ela. Rowena. Sua alma entrelaçada com a minha dentro da pedra. Ela
gritava. Gritava meu nome, me amaldiçoava, chorava por Orion, implorava para vê-lo mais
uma vez, apenas mais uma vez.
Mas eu a segurava, a envolvia, sussurrava que estava tudo bem, que ela veria Orion
crescer através da esmeralda, que estaríamos sempre juntos, sempre protegendo nosso filho.
— Eu te amo. Eu te amo. Perdoe-me.
Repeti até que não soubesse mais se estava falando ou se era apenas um eco dentro da
pedra que pulsava contra minha palma.
A luz explodiu.
Verde, tão verde que consumiu o quarto inteiro. Depois o castelo, depois a cidadela.
Senti a magia se expandindo como uma onda silenciosa, cobrindo Micelor como um manto
invisível. Cada criatura mágica sentiu seus poderes desaparecerem. Cada portal se fechou.
Cada vínculo com o mundo exterior se rompeu.
Silêncio.
Quando acordei? Horas depois? Dias?
Estava no chão ao lado da cama. Meus pulsos tinham parado de sangrar, as feridas já
começavam a cicatrizar, até que desaparecessem por completo, com uma velocidade
antinatural. Meu corpo estava vivo, mas vazio. Oco.
Rowena permanecia imóvel na cama com seus olhos abertos fitando o teto. Ainda
respirava. Seu coração ainda batia. Mas não havia ninguém por trás daqueles olhos verdes.
Ela estava dentro da esmeralda. Comigo. Para sempre.
Finalmente Orion começou a chorar. Um choro agudo, desesperado, como se soubesse.
Como se, de alguma forma, uma criança de um ano e meio pudesse sentir que sua mãe nunca
mais o seguraria nos braços.
Peguei a esmeralda, ainda quente, ainda pulsando, e a encostei na coroa que havia sido
de meu pai, de meu avô e dos quatro últimos reis que vieram antes. Coloquei a coroa sobre
minha cabeça.
A pedra pulsou uma vez. Suave. Como um coração batendo. Ou como uma maldição sendo selada.
Levantei-me, cambaleante, e fui até Orion. Ele estava de pé no berço, pequenas mãos
agarradas às grades de madeira, rosto vermelho e molhado de lágrimas.
— Mamãe… — soluçou, estendendo os bracinhos para mim. — Mamãe…
Peguei-o no colo. Ele se agarrou a mim, enterrando o rosto em meu ombro.
— Ela está aqui, filho. — Toquei a esmeralda na coroa. Ela pulsou novamente, mais forte desta vez. — Sua mãe está sempre conosco.
Lá fora, o primeiro amanhecer de um novo mundo começava a clarear o horizonte.
Um mundo onde Micelor finalmente estaria segura. Onde nenhuma mãe mais choraria por
filhos mortos em guerra. Onde nenhum pai mais enterraria suas crianças.
Para sempre.
Segurei Orion contra meu peito e olhei pela janela. Não via mais o mundo além das
fronteiras. Não sentia mais a presença de outros reinos. Micelor estava isolada. Protegida.
Inalcançável. Perfeita.
E se o preço disto era a alma de Rowena e a minha também…
Bem. Sacrifícios necessários foram feitos.